domingo, 26 de abril de 2015

O primeiro toque


   Vai parecer estranho uma menina que estudou desde os 10 anos em colégio católico dizer que só ouviu falar de Deus aos 17 anos, mas pra mim foi assim, embora eu tivesse aulas de religião na escola, nunca havia prestado atenção em Deus, não sabia quem era Jesus e nem fazia ideia de que adolescentes iam pra igreja porque gostavam, mas um dia Ele me chamou.
   Não quero me perder na história, então para que entendam eu vou explicar melhor o que quero dizer: Sempre fui ensinada a rezar o pai nosso, mas era apenas algo que me faziam decorar e nunca me explicaram o porquê, quando entrei para o colégio católico aprendi a rezar pros anjos e eram só eles que eu achava que existiam com Deus no céu e que mandavam em tudo, depois conheci a confortante imagem de Maria, ela parecia tão acolhedora que eu podia passar horas olhando, depois me ensinaram músicas que falavam sobre ela e uma oração que me trazia paz, então, comecei a adorá-la. Entendi logo que ela era mãe desse Deus que tinha poder de criar tudo e até de mandar nos anjos e que como mãe, qualquer coisa que eu pedisse pra ela, ela mandaria Deus fazer, claro que ela virou o centro do meu universo, até que notei meus pedidos se acumulando e resolvi que ela não estava afim de pedir por mim.
   Tive uma amiga que aos 13 anos era apaixonada pelo mundo dos mortos, ela acreditava que eles estavam por aí entre nós e podiam fazer coisas se nós permitíssemos e que nos ajudaria se ajudássemos eles, sempre achei bobagem, mas pra não perder a amiga embarquei na onda de "falar com espíritos", entre velas, dizeres inventados e apelidos de demônios, eu dizia pra ela que estava vendo e sentindo a presença desses espíritos, até que comecei a ter terríveis pesadelos e sufocar durante a noite e desisti disso.
   Para me livrar dos mortos, com 14 anos, eu achei que precisava meditar e me ligar com Deus, mas aquele Deus que eu inventei na minha cabeça, essa conecção seria através da natureza, então comecei a estudar sobre wicca (um tipo de bruxaria com plantas e coisas naturais), essa amiga embarcou comigo nessa, fizemos vários feitiços, compramos coisas exotéricas e inventamos as regras do jogo, os dizeres mágicos e etc. Com 15 anos me mudei com minha família pra outro bairro, troquei de escola e não vi mais essa amiga, mas influenciei outras 4 meninas a praticar bruxaria branca comigo, acreditando mesmo que estava me conectando com Deus e que era ele que me ajudava através da natureza em meus feitiços.
   Essas meninas saíram da escola no outro ano e a que ficou não ligava pra religiões e não acreditava em nada, mas aí entrou outra menina pro meu grupinho na escola, uma com outro tipo de vida e que jurava que tinha um toque curativo, eu fiquei curiosa com a religião dela e como ela gostava tanto e mais ainda em como as pessoas a volta dela achavam ela incrível por receber espíritos em seu próprio corpo, os que não vibravam de excitação, vibravam de medo e eu resolvi que queria esse poder também.
   Foi assim que ao 16 anos entrei pro candomblé, na verdade foi bem fácil, eu tenho uma tia que é mãe de santo e ela gosta bastante de mim, então fui ao seu barracão, comecei a me interessar por ela e acabei pegando paixão por essa tia, ela se tornou um exemplo pra mim, todos em volta dela a amavam tanto que era confortável andar por onde ela andava, depois seus filhos e filhas de santo começaram a me tratar como uma princesa e me senti muito feliz, estava no paraíso, eu era amada demais ali  e mimada também, até as coisas que me mandavam fazer de trabalho eu sempre tinha alguém se oferecendo pra fazer por mim, me senti em casa.
   Aos 17 eu frequentava o barracão em todo meu tempo livre e quando não estava lá, eu falava sobre como era estar, em certo momento me disseram que o orixá iria me cobrar a entrega, pois eu teria muitos deles precisando possuir meu corpo pra "trabalhar" e eu não permitia, foi aí que comecei a questionar algumas coisas, queria muitas respostas, queria aprender sobre Deus, me lembrei o que tinha ido procurar, mas as incógnitas que o Diabo lançava eram tão grandes que eu entrava cada vez mais pra poder receber respostas.
   Certo dia, indo encontrar um grupo de amigos na balada, de mini saia e blusa que mais mostrava do que cobria, passei de ônibus por uma igreja evangélica pertinho da minha casa, cuja o barulho sempre me incomodava um pouco quando eu ficava jogando sinuca no bar da frente, mas nesse dia o barulho era diferente e me atraiu, desci do ônibus e fui pra porta entender o que aqueles alegres adolescentes cantavam, fiquei parada na porta por alguns minutos até que uma sorridente senhora saiu pra me abraçar e fui literalmente empurrada para dentro, a música terminou e a doce menina veio sentar ao meu lado para ouvir o Pastor falar, imediatamente me envergonhei pela minha falta de roupa, mas todos agiram como se eu tivesse totalmente vestida, sorriram, me abraçaram, as crianças vieram me beijar e todos queriam conversar e saber de mim no final.
   Foi lindo, mágico e dividiu meu coração, me sentia em casa lá no terreiro, mas na igreja eles tinham as respostas que eu queria, eles falavam coisas que eu sempre tive curiosidade de saber, eles explicavam e provavam com suas bíblias as quais tinham decorado as palavras e assim de repente me vi tomada por atividades da igreja e cercada pelo amor deles, não sabia ainda quem era Jesus, mas Deus se tornou um ser muito especial pra mim  e eu gostava bastante.   
   Eu achava muito bom estar na igreja, mas logo fiz 18 anos e comecei a trabalhar todos os dias, até nos finais de semana, comecei a namorar um cara de família espírita, fui morar com ele e tentei seguir a religião deles mas meu coração não conseguia mais,  então  parei de frequentar a qualquer lugar. Mas a semente havia sido plantada e estava para germinar...  
     

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